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Dentistas no SNS

Manuel Fontes de Carvalho: “A entrada dos médicos dentistas no SNS é uma medida política”

Fontes de Carvalho

A entrada dos médicos dentistas no Serviço Nacional de Saúde tem sido amplamente discutida no seio da medicina dentária. A SAÚDE ORAL tem estado a ouvir algumas personalidades do setor e quis saber a opinião de Manuel Fontes de Carvalho, Pró-Reitor da Universidade do Porto, que recebeu a notícia com algum agrado, mas muita desconfiança. “Com agrado porque tudo o que seja para melhorar a posição do médico dentista, ainda que seja pouco, é positivo. Tal como é positivo para a saúde dos cidadãos”. Ainda assim, para Fontes de Carvalho esta é uma medida política, “que tem as leituras que quisermos dar”.

“Politicamente para a Ordem dos Médicos Dentistas é muito importante, tal como para o Governo, porque não resolve nada e está desfasada no tempo. Durante o período de vida que dediquei à causa da medicina dentária batalhei sempre pela integração no SNS. Esta medida seria eficaz se tomada há 20 anos”.

Entretanto aumentou o número de médicos dentistas no país de forma “astronómica, proliferaram clínicas dentárias, a maior parte sem viabilidade económico-financeira. Com contratos de prestação de serviços e convenções seria mais barato para o Estado e permitiria aos colegas ter mais trabalho”.

Já da parte do SNS, e “independentemente de ter ou não equipamentos, a verdade é que vai haver necessidade de investimento do Ministério da Saúde para tal, sendo que ainda mais dispendioso vai ser a manutenção dos equipamentos, o custo adicional com pessoal, que não apenas os médicos dentistas, e o custo com o material usado nos consultórios. Desconfio que, a curto prazo, o Ministério da Saúde não esteja a dar o dito pelo não dito”.

A tornar-se realidade, e em termos de empregabilidade para os médicos dentistas, significaria “um a dois anos de produção nacional de médicos dentistas. Pode atenuar o problema, mas não resolve a curto prazo o excesso de dentistas e não me parece que melhore a assistência da medicina dentária no país. Se optarmos pela racionalização das clínicas e médicos dentistas, capazes de dar o seu contributo à saúde oral do país, seria uma solução mais eficaz”.

Excesso de médicos dentistas

Face ao problema que representa o excesso de médicos dentistas em Portugal, Fontes de Carvalho é direto: “não gosto de não assistir a ações eficazes por parte da OMD relativamente ao excesso de profissionais. Em Coimbra, numa reunião de jovens dentistas, referi que ou redimensionamos o ensino da medicina dentária no país ou temos uma situação de custos sociais enormes, porque um médico dentista só tem essa saída profissional”.

Para o pró-reitor, o que está a acontecer atualmente com o excesso de profissionais “é um atentado ao futuro dos jovens e ainda não vi a OMD a tomar uma posição firme em relação a este assunto”.

O facto de não se ter reduzido número de alunos faz com que “a proximidade do abismo seja muito grande. As pessoas têm de ter consciência que a maioria dos estudantes de medicina dentária não conseguiram entrar em medicina e ainda têm esperança, mais tarde, pedirem transferência para o curso de Medicina. Isso tem acontecido porque a medicina tem conseguido, até agora, a colocação dos médicos, algo que este ano já não está a acontecer e muitos já têm de emigrar”.

Fontes de Carvalho avançou que a Universidade do Porto vai levar a cabo um inquérito de empregabilidade dos seus cursos e “para que as famílias percebam que a medicina dentaria não tem hipóteses de futuro, e que hoje em da existem situações de subemprego e exploração de colegas que ganham menos de 5€ por consultas, com as seguradoras a proliferar no país. Isso não tem vindo a público. É preciso que as famílias saibam que a medicina dentária não gera futuro a ninguém. Quem quer vir para o curso de Medicina Dentária a pensar que vai ter uma vida desafogada tem de saber que isso não é verdade. E isto tem de ser dito”.

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