Quantcast
Novas Tecnologias

Tecnologia em Medicina Dentária: Um investimento ou um custo que só alguns podem suportar?

clínica dentária SO

Quem conseguir acompanhar a revolução tecnológica arrisca-se a estar na linha da frente. O surgimento de novas tecnologias é uma constante, mas mais importante do que ansiar por elas é apostar na sua consolidação. A SAÚDE ORAL perguntou aos médicos dentistas o que esperam eles do futuro. Muitos já utilizam tecnologia de ponta, mas o preço de alguns equipamentos faz com que não estejam ao alcance de todos os profissionais.

Há muito que a revolução tecnológica chegou à medicina dentária e veio para ficar. Christian Coachman, criador do conceito Digital Smile Design (DSD), dizia à SAÚDE ORAL que “não há como escapar ou fugir”. E dizia mais: “a revolução já começou e vai acontecer de maneira muito rápida”, sendo que “se os profissionais estiverem recetivos à tecnologia muito em breve vão estar na linha da frente”.

Seja ao nível de novos software que possibilitem, por exemplo, o desenho digital do sorriso, seja através do surgimento de novos equipamentos como as brocas condensadoras de osso ou até dos próprios materiais cada vez sofisticados, hoje em dia dificilmente a medicina dentária se dissocia dos avanços tecnológicos. No entanto, uma característica marcante nesta revolução é a fidelidade das tecnologias ao princípio do respeito pela biologia.

A tecnologia vai ‘beber’ à natureza, exemplo disso é o conceito Skyn, cocriado por Lívio Yoshinaga, onde é defendido que se deve ir buscar à natureza dentes com formas bonitas que, após copiadas, são adaptadas diretamente na boca do paciente.

(Novas) Tecnologias

Estes podem ser conceitos, técnicas e equipamentos relativamente recentes, no entanto há (novas) tecnologias que já fazem parte do dia-a-dia de uma clínica dentária ou de um laboratório há alguns anos, mas que continuam a surpreender os profissionais, tanto pelas melhorias que vão sofrendo com o passar do tempo, como pelas (novas) potencialidades que ainda vão sendo descobertas e/ou consolidadas. “Na área laboratorial, e em concreto em reabilitação oral, o CAD/CAM é seguramente a tecnologia que realmente fez a diferença no que diz respeito à definição de processos diferenciados para a produção das próteses”, avança Luís Macieira, diretor- técnico do DentalRéplica. “Não sendo uma novidade dos últimos anos, a verdade é que foi nos últimos cinco anos que passámos a contar com sistemas que trazem definitivamente a tecnologia de forma acessível para dentro das pequenas empresas, que são a maioria no setor dental no que toca à conceção e execução dos tratamentos. Este facto não só permite melhor controlo de custos, mas também o definitivo acesso a melhores materiais e processos que contribuem positivamente para a qualidade final dos tratamentos”.  Numa área cuja história observou continuamente o uso de técnicas ancestrais, como por exemplo o ‘método de cera perdida’, “é hoje em dia possível desenhar e executar peças e dispositivos apenas com base em desenho virtual 3D e fabricar a partir de blocos pré-fabricados industrialmente com a garantia de qualidade que um trabalho puramente artesanal não pode oferecer”, refere o diretor-técnico.

Porém, o CAD/CAM não está sozinho nesta revolução. Marco Fonseca salienta ainda as novas gerações de panorâmicos digitais com 3D (reconstrução volumétrica da boca e crânio do paciente em 3D). Para o dental sales manager da Carestream Dental for Portugal, estas duas tecnologias tiveram a capacidade não só de se integrar simultaneamente, diminuindo o tempo dos resultados pretendidos em somente algumas horas, como dar garantia de um tratamento corretamente planificado diminuindo consideravelmente a taxa de insucessos”.

tecnologia em clínicas dentárias

Tecnologia no consultório

Além dos técnicos de próteses, os médicos dentistas também abriram a porta dos seus consultórios a estas e a outras tecnologias e muitos são fãs incondicionais das suas potencialidades. “Eu sou um adepto convicto das novas tecnologias, incluindo na Medicina Dentária”, declara Paulo Monteiro, médico dentista, explicando que no seu dia-a-dia clínico “é imprescindível a fotografia dentária para fazer a documentação e seguimento dos casos clínicos. Por outro lado usamos diariamente sistemas CAD/CAM na reabilitação dos nossos pacientes. Finalmente, e porque é um instrumento fundamental de diagnóstico, os sistemas de radiologia computadorizados são totalmente indispensáveis na nossa prática clínica”.
Também André Correia, médico dentista da Manuel Neves – Clínica de Medicina Dentária, que dedica a maior parte da sua atividade clínica à prostodontia, explica por que razão determinadas tecnologias são indispensáveis à sua prática clínica: “por exemplo, numa fase inicial a ortopantomografia é fundamental como exame complementar para dar uma visão panorâmica do estado de saúde intraoral do paciente. A fotografia digital é essencial em qualquer etapa da reabilitação seja no diagnóstico, no tratamento e no follow-up do paciente. Já as tomografias computorizadas de feixe cónico (CBCT) vieram dar um grande contributo no estudo da reabilitação protética implanto-suportada, sendo um exame imagiológico que nos dá uma grande quantidade de informação dos tecidos duros, e inclusive de tecidos moles, com uma dose de radiação bastante inferior às tomografias convencionais (princípio ALARA: As Low As Reasonable Achievable)”. Não obstante, para o médico dentista a tecnologia CAD/CAM é aquela que mais o fascina porque “a evolução nos últimos anos tem sido impressionante. A qualidade das digitalizações intra e extraorais, dos software de desenho assistido por computador (CAD) e da maquinação dos elementos protéticos (CAM) é excelente”.

Ana Mano Azul, médica dentista da Clínica Integrada de Medicina Oral, não dispensa as técnicas imagiológicas atuais, tais como a ortopantomografia e telerradiografia digitais, a TAC, a radiovisiografia e a fotografia digital. No que toca a tecnologias de tratamento não abre mão do CAD/CAM para a área de reabilitação oral. A médica dentista sublinha ainda, no âmbito de tecnologias úteis no dia-a-dia da clínica, alguns ‘pequenos equipamentos’ mais correntes e de uso diário, como “os fotopolimerizadores de tecnologia LED, os pequenos dispositivos de pré-aquecimento de resinas compostas para restauração ou cimentação, aparelhos de automistura e dispensadores de materiais de impressão de forma automática e dispositivos dispensadores de partículas de óxido de alumínio para asperização de superfícies”.

Todavia, nem todos os profissionais conseguem ter acesso a algumas destas tecnologias. Cláudia Pinto, que se dedica à ortodontia e é assistente convidada de Ortodontia da Licenciatura em Medicina Dentária da Universidade Católica Portuguesa, relata que, por exemplo, “gostava de utilizar apenas exames radiológicos digitais, mas isso ainda não é possível, pois trabalho em clínicas com aparelhos analógicos”. Se eventualmente trabalhasse apenas com exames digitais, pois utiliza um software de cefalometria, a importação da imagem seria direta. Assim “com os analógicos tenho de proceder à sua digitalização”.

Apesar de, como defende Cláudia Pinto, se estar a assistir a uma grande evolução tecnológica, por outro lado “seria ideal podermos alargar a sua utilização, pois ainda há pouco acesso a muitos destes equipamentos”. Isto devido às dificuldade de aquisição dos equipamentos, visto que o custo dos aparelhos digitais ainda é elevado. “Seguramente que o maior entrave é o preço sempre elevado destes equipamentos, visto que alguns deles podem custar entre 50 mil euros e 150 mil euros”, destaca Paulo Monteiro, para quem estas tecnologias devem ser encaradas “como um investimento e não como um custo”. Também Ana Mano Azul vê a aquisição destas tecnologias como um investimento, sobretudo “na procura de uma melhor abordagem dos nossos doentes”. Contudo, chama ainda a atenção para o facto de as novas tecnologias “implicarem novas curvas de aprendizagem”.

Mas se qualquer investimento exige um plano de implementação e um estudo da sua rentabilidade, a boa notícia é que, por norma, como qualquer tecnologia, “o preço tem sempre tendência a baixar ao longo dos meses/anos, de uma forma bastante acentuada”, complementa André Correia. Um ponto de vista corroborado por Marco Fonseca “a nossa visão do mercado diz-nos que o futuro nos promete soluções mais baratas, que estejam ao alcance de todos os especialistas”.

Reconstituição de tecidos dentários por tecnologia aditiva

O futuro não trará somente preços mais em conta. Irá trazer, igualmente, a consolidação da tecnologia existente. Neste sentido, Luís Macieira opina que “mais importante do que permanentemente ansiar por inovação, é a consolidação das tecnologias existentes”. As novas tecnologias são muitas vezes tardiamente introduzidas de forma global e podem levar alguns anos a estabelecerem-se como padrão. “Curvas de aprendizagem e desvios de desenvolvimento são também fatores que adiam a consolidação de processos”.

Ano após ano, tecnologias vão sendo desenvolvidas ou pelo menos aprimoradas. Paulo Monteiro tem a certeza de que “no futuro vamos ter a reconstituição de tecidos dentários por tecnologia aditiva, tal como já existe na medicina. Será uma nova era em que, combinando estas tecnologias com a engenharia genética poderemos reproduzir e repor tecidos iguais aos perdidos”. Quanto às tecnologias CAD/CAM e ao nível dos materiais restauradores “iremos viver brevemente um ‘boom’ de materiais e técnicas restauradoras aditivas. Será possível (já o é…) estratificar a restauração com diversas cores e opacidades, tal como sucede com o dente natural (esmalte e dentina)”.

Espreitando o futuro, Ana Mano Azul acredita que irão surgir “meios de diagnóstico de elevada sensibilidade/especificidade para facilitar o médico no diagnóstico precoce e diferencial de patologias dentárias, periodontais e das mucosas, e ainda de doenças sistémicas”, assim como “antimicrobianos locais ou sistémicos eficazes a longo prazo, e com poucos /nenhuns efeitos colaterais, para as bactérias presentes na periodontite e nas perimplantites (uma ‘patologia do futuro’)”.

Já André Correia chama a atenção para o facto de a maioria da tecnologia já existir ou estar em franco desenvolvimento. “A sua implementação na Medicina Dentária é que ainda não é integral/funcional”. Daí que, por exemplo, aguarde o dia em “que deixarei de usar materiais de impressão em todos os casos clínicos de reabilitação protética e em que, com dispositivos de captura de imagem sem radiação, conseguirei passar para um computador imagens 3D estáticas e dinâmicas do paciente, com uma definição elevadíssima da forma, textura e cor dos tecidos duros e moles, e em consequência produzir as estruturas protéticas de uma forma muito rápida, precisa e muito semelhante às estruturas naturais”. Em última análise, e de um ponto de vista quase ‘ficcional’, o médico dentista salienta: “espero ainda assistir ao dia em que seja possível regenerar estruturas dentárias”.

tecnologia em clínicas dentárias - Saúde Oral - 2

Ortopantomografia

Vantagens:

– Rápida e acessível;

– Informação fundamental para aferir o estado de saúde oral do paciente.

Desvantagens:

– Imagem 2D.

Fotografia digital

Vantagens:

– Meio de documentação;

– Meio de autocorreção;

– Meio de planeamento;

– Meio excelente de comunicação com o laboratório;

– Meio de comunicação com o paciente;

– Meio de marketing (em vez de se comprar fotografias em websites na internet para colocar na clínica, com as próprias fotografias, o clínico pode ilustrar os meios de comunicação pretendidos, valorizando esse mesmo meio).

Desvantagens:

– Preço dos equipamentos fotográficos adequados a uma fotografia de qualidade.

Tomografia computorizada de feixe cónico

Vantagens:

– Rapidez;

– Obtenção de muita informação com uma quantidade de radiação pouco superior à ortopantomografia;

– Além das imagens 2D, permite fazer reconstruções 3D dos tecidos duros do paciente, o que contribui bastante para o estudo da reabilitação a efetuar.

Desvantagens:

– Ligeiramente mais dispendiosa e com um pouco mais de radiação comparativamente à OPG, mas tem a grande vantagem de dar muito mais informação;

– Não tem qualidade mínima (comparando com a TC) para discriminar radiologicamente lesões ou tumores intraósseos, lesões de osteonecrose, etc..

CAD/CAM

Vantagens:

– Qualidade excelente no desenho e maquinação das estruturas protéticas. Permite ao médico dentista e ao técnico de prótese dentária ter uma visualização 3D muito precisa da estrutura protética, o que convencionalmente não se consegue.

– Permite guardar todas as informações do desenho e da maquinação, sob um ponto de vista numérico, quantitativo. Se porventura houver alguma falha mecânica da reabilitação protética pode-se aceder aos dados da mesma e analisar o porquê dessa falha.

– Em alguns casos clínicos permite eliminar as impressões dentárias com os tradicionais materiais de impressão pois pode-se utilizar câmaras intraorais para fazer a digitalização das preparações dentárias. Na versão de consultório, e em determinados casos clínicos, pode-se inclusive efetuar as reabilitações protéticas de uma forma muito rápida, no próprio dia da consulta.

– Alguns sistemas CAD/CAM permitem realizar todo o fluxo clínico, desde o planeamento à fresagem das restaurações finais e à sua manutenção através de software específicos de análise. Por exemplo através do planeamento, integram a tecnologia de radiologia digital, scanner facial e scanner intraoral. Com isto conseguem para além do planeamento, guiar na fase cirúrgica, e na confeção das restaurações.

– Além dos equipamentos outra grande vantagem são os materiais restauradores disponíveis para utilizar com esta tecnologia. Ao invés dos atuais materiais de técnicas de subtração, vai-se assistir num futuro muito próximo a técnicas e materiais CAD/CAM de adição.

Desvantagens:

– Investimento ainda é muito elevado.

Artigo publicado na edição de setembro/outubro de 2015 da revista SAÚDE ORAL

Este site oferece conteúdo especializado. É profissional de saúde oral?