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Brexit

“Um tiro no escuro, um Reino Desunido”

Luís Filipe Amante Saúde Oral

No rescaldo do Brexit pedimos a Luís Filipe Amante, médico dentista a exercer no Reino Unido, um comentário sobre a saída dos ingleses da União Europeia e como essa decisão pode ter um impacto direto na vida dos profissionais portugueses a exercer em Inglaterra.

“A notícia do resultado do referendo relativo à saída do Reino Unido da União Europeia apanhou-me a mim, como a grande parte do mundo civilizado, de surpresa. Depois de uma campanha aguerrida e, em certas alturas, algo crispada ou mesmo (psicologicamente) violenta, nos últimos dias que antecederam o dia da votação havia uma indubitável preocupação com o resultado final, mas no fundo tanto eu, como grande parte do meio milhão de portugueses residentes no Reino Unido, acalentávamos a esperança que, no fim de contas, os nossos aliados seculares tomassem de facto uma posição de ponderação e integração, como seria de esperar de um estado democrático que fazia parte ativa de um grupo de nações há mais de 40 anos”.

Além da surpresa com o resultado da votação, para Luís Filipe Amante mais surpreendente foi perceber a desorientação por parte de quem tinha votado para sair da EU. “Na manhã dessa 6ª feira, ao deparar-me com os surpreendentes resultados, a maior das surpresas mesmo foi a admissão por parte dos Brexiteers que as promessas que haviam propagandeado a alta e viva voz e os planos de uma retoma de uma independência outrora perdida ou agrilhoada, não passavam disso mesmo: propaganda infundada, não calculada e impostora, como gritantemente evidenciado nas declarações de Nigel Farage, que horas antes havia prometido uma injeção de 350 milhões de libras por semana no NHS (sistema nacional de saúde inglês) se o Leave singrasse e ali mesmo admitia que afinal não era bem assim”.

“Na ressaca desta decisão muitos dos britânicos, inclusivamente os que lideraram as cores do Leave, consciencializaram-se que terão possivelmente cometido o maior erro da sua história política e social recente, ao assistirem à caída vertiginosa da libra, do aumento da incerteza relativamente das pensões e de um crescente clima de tumulto social, exacerbado por uma minoria mesquinha, racista e muitas das vezes ela própria usurpadora dos benefícios sociais, que tanto acusam de serem abusados pelos estrangeiros”.

Um Reino Desunido

Para o médico dentista, este foi um tiro no escuro, “um Reino Desunido, clichés das últimas horas que foram servidos em bandeja de prata por uma franja da população essencialmente envelhecida, retrógrada e, pior que tudo, vem-se a saber mal informada ou até mesmo enganada. Mais uma machadada na ponderação, moderação e tolerância que qualquer sensato gostaria de imaginar num quadro de futuro próspero para as gerações que nos sucederão e que decerto nos julgarão, especialmente se permitirmos que indivíduos do calibre deste Farage, Boris Johnson ou mesmo os Le Pens e os Trumps desta vida vinguem e governem impondo os seus ideais castradores, quais demónios que se alimentam do infortúnio e das crise de valores para extremar e turvar a visão dos indecisos e influenciáveis”.

“Em tempos de incerteza e de crise, e independentemente das implicações ou ilações políticas de esquerdas e direitas, de trabalhadores ou liberais, a humanidade sempre vingou quando caminhou no sentido da união, da integração, da fraternidade, nunca da separação, da fratura e da segregação, juntos seremos sempre mais fortes”.

O dia-a-dia de um médico dentista português no Reino Unido

Na opinião de Luís Filipe Amante, para o dia-a-dia de um médico dentista português no Reino Unido, as implicações do Brexit são ainda “turvas e vão depender, à semelhança do caso de muitos outros profissionais, do complexo processo negocial que se irá seguir com a União Europeia, como previsto no tratado de Lisboa”.

“Se no futuro imediato antevejo que nada de muito abrupto se irá passar (não creio que haja despedimentos ou alterações significativas das condições de trabalho), a verdade é que ninguém sabe a verdadeira magnitude deste sismo, que se começou a propagar na manhã dessa 6ª feira chuvosa, mas antevê-se perda de poder de compra generalizado, aumento dos preços de produtos e serviços e basicamente uma recessão da economia que afetará os profissionais de saúde, os pacientes e todos os sistemas vigente de forma transversal, o que não aparenta ser um bom prenúncio”.

Quanto à possibilidade dos estrangeiros serem expulsos, o médico dentista considera essa ideia exagerada “porque afinal de contas, se atentarmos por exemplo ao tão falado NHS, mais de ¼ dos médicos não são britânicos e o sistema não sobreviria um dia sequer sem os largos milhares de trabalhadores estrangeiros que asseguram que a saúde da nação não colapse. No entanto, não é de admirar que este tipo de atitude de sectarismo não faça com que muitas das pessoas repensem o seu futuro como trabalhadores estrangeiros no seio deste Reino agora menos unido e que indubitavelmente irá ter um impacto massivo nos potenciais novos emigrantes”.

Os cenários mais plausíveis para os médicos dentistas portugueses no Reino Unido, na opinião de Luís Filipe Amante, dividem-se entre dois caminhos distintos: “o caminho do regresso, um caminho ele próprio incerto e sinuoso já que os ruídos económicos que à distância ecoam da nossa pátria são no mínimo desencorajadores e ainda mais potencialmente exacerbados pela possibilidade de crise geopolítica que o fenómeno do Brexit pode, e mais do que provavelmente irá revelar, sob a forma de um assustador e imparável dominó de desagregação e de mais recessão”.

“O outro caminho é o da nacionalização, do pedido de um passaporte britânico, algo que muitos já fizeram e já visitou as cogitações da maioria decerto, ainda mais agora que a própria tutela portuguesa (e ainda antes de o resultado emergir) o tenha sugerido. Depois da fuga de cérebros, agora a nacionalização dos mesmos, mais uma solução brilhante, quiçá até inevitável, decorrente do maior flagelo socioeconómico deste século, que é a crise económica e de valores que em meados de 2008 se abateu no mundo atropelando os paradigmas e a segurança que muitos (principalmente os jovens) tomavam por garantida. Voltar a Portugal, por ora, parece um sonho difícil, mas quem sabe ainda atingível, mas à luz deste nonsense político, destas manobras sectaristas e anti-humanistas de desagregação de valores de que o Brexit possivelmente será apenas o início … quem sabe se sonhar e augurar um futuro risonho será possível de todo”.

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